CAPÍTULO
I
PEQUENA CONFERÊNCIA ESPÍRITA
TERCEIRO
DIÁLOGO
O
PADRE
O
QUE É O ESPIRITISMO – ALLAN
KARDEC
Um abade. —
Permitir-me-eis, senhor, dirigir-vos, por minha vez, algumas perguntas?
A. K. — De boa
mente, reverendo; mas, antes de responder a elas, creio útil fazer-vos conhecer
o terreno em que me devo colocar perante vós.
Primeiro que
tudo, cumpre-me declarar que não tenho a pretensão de vos converter às nossas
ideias. Se desejardes conhecê-las pormenorizadamente, encontrá-las-eis nos livros
em que estão expostas; neles podereis estudá-las à vontade e aceitá-las ou
rejeitá-las.
O Espiritismo
tem por fim combater a incredulidade e suas funestas consequências, fornecendo
provas patentes da existência da alma e da vida futura; ele se dirige, pois,
àqueles que em nada creem ou que de tudo duvidam, e o número desses não
é pequeno, como muito bem sabeis; os que têm fé religiosa e a quem esta fé
satisfaz, dele não têm necessidade.
Àquele que diz:
“Eu creio na autoridade da Igreja e não me afasto dos seus ensinos, sem nada
buscar além dos seus limites”, o Espiritismo responde que não se impõe a pessoa
alguma e que não vem forçar nenhuma convicção.
A liberdade de
consciência é consequência da liberdade de pensar, que é um dos atributos do
homem; e o Espiritismo, se não a respeitasse, estaria em contradição com os
seus princípios de liberdade e tolerância.
A seus olhos,
toda crença, quando sincera e não permita ao homem fazer mal ao próximo, é
respeitável, mesmo que seja errônea.
Se alguém fosse
por sua consciência arrastado a crer, por exemplo, que é o Sol que gira ao
redor da Terra, nós lhe diríamos: “Acreditai-o se quiserdes, porque isso não
fará que esses dois astros troquem os seus papéis”, mas assim como não
procuramos violentar-vos a consciência, respeitai também a nossa.
Se
transformardes, porém, uma crença, de si mesma inocente, em instrumento de perseguição,
ela então se tornará nociva e pode ser combatida.
Tal é, senhor
abade, a linha de conduta que tenho seguido com os ministros dos diversos cultos
que a mim se hão dirigido. Quando eles me interpelaram sobre alguns pontos da
Doutrina, dei-lhes as explicações necessárias, abstendo-me de discutir certos
dogmas de que o Espiritismo não se quer ocupar, por serem todos os homens
livres em suas apreciações; nunca, porém, fui procurá-los no propósito de lhes
abalar a fé por meio de qualquer pressão.
Àquele que nos
procura como irmão, nós o acolhemos como tal; ao que nos repele, deixamo-lo em
paz. É o conselho que não tenho cessado de dar aos espíritas, porque não
concordo com os que se arrogam a missão de converter o clero. Sempre lhes tenho
dito: Semeai no campo dos incrédulos, onde há colheita a fazer.
O Espiritismo
não se impõe, porque, como vo-lo disse — respeita a liberdade de consciência;
ele sabe também que toda crença imposta é superficial e não desperta senão as
aparências da fé; nunca, porém, a fé sincera. Ele expõe seus princípios aos
olhos de todos, de modo a cada um poder formar opinião segura.
Os que lhe
aceitam os princípios, sacerdotes ou leigos, o fazem livremente e por achá-los
racionais, mas nós não ficamos querendo mal aos que se afastam da nossa
opinião. Se hoje há luta entre a Igreja e o Espiritismo, nós temos consciência
de não havê-la provocado.
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